domingo, 19 de setembro de 2010

Paralelos no infinito.

Sábado na solidão.
Tomou um banho, se arrumou, olhou no espelho e sorriu.
Saiu de casa, pegou aquele elevador lerdo, deu bom dia ao porteiro e foi para a rua.
Sol a pino, calor desértico e sufocante. Pássaros, graças aos deuses, pássaros.
Mecanicamente pegou o metrô e foi até lá onde as lembranças dele povoavam.
Enquanto ouvia os sons do metrô caiu em si e já estava naquele mesmo bairro de antes.
Lembranças que por muito tempo povoaram seus sonhos adentravam sua mente agora como um furacão. Cada cheiro, cada florzinha e cada pessoa que trabalhava por ali lhe davam aquela sensação de frio na barriga como quando encontramos algo que amamos depois de muito tempo.
Caminhou o dia todo por lá, sentou no banco daquela praça, entrou pela primeira vez naquela igreja, comeu pipoca, tomou um café, até que cansou.
Levantou preparado para pegar aquele metrô de volta pra casa.
Quando ia embora, ouviu um grito:
- Roberto!
Olhou pra trás, e era ela. Ela, ela, ela, a sua.
Incrédulo, com o coração em disparada, as mãos suando, o tremor, o calor e a emoção daquela hora tenra e cálida.
Nem nos seus sonhos mais bonitos essa cena aconteceria. Ela estava ali, bem à sua frente, e tudo o que ele pode dizer foi um fraco e fino "oi".
Como traduzir o silêncio deste encontro?
Olharam-se por minutos, num encantamento contente de quem se encontra depois de ter se perdido há anos, como a magia do encontro de paralelos que se cruzam no infinito.
Ele sempre procurava ela nas coisas boas, e quando não achava, ele a inventava nos detalhes dos caminhos em que andava, para nunca ter que esquecê-la.
E agora com ela ali na sua frente, apenas a quietude.
Fios de segundos e o silêncio se quebrou com um sorriso, do sorriso um riso mais que liso, e um beijo.
Haviam os dois guardado as promessas em baús cadeados e jogado ao fundo do mar, como tesouros escondidos de rainhas francesas, e nada mais faria com que se encontrasse a chave destes baús, a menos que mergulhadores os encontrassem e o tesouro ficaria em algum museu, perdido para sempre em fotografias.
Aquele beijo despertou os sentimentos reprimidos, os detalhes esquecidos, uma saudade revigorada e um coração batendo forte no tempo do vento.
Caía o orgulho com a noite, e o amor se mostrava conforme a lua. Sem dor, sem tédio, sem crise, sem rasgar o passado, apenas o álcool e o riso, a fórmula do amor.


(Depois de muito tempo, este foi o primeiro dia das nossas novas vidas.)


5 comentários:

  1. Versos...não
    Poesia...não
    Um modo diferente de contar velhas histórias.....
    Cora Coralina

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  2. Versos...não
    Poesia...não
    Um modo diferente de contar velhas histórias.....
    Cora Coralina

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