terça-feira, 2 de março de 2010

Olhava pela janela do carro em pensamentos distantes.
Ouvia sem escutar as risadas dos outros que a acompanhavam, apenas olhava o nada. Nem paisagens, nem árvores, nem flores. Nada.
A mente submersa em seu próprio mundo, um jardim particular que ela gostava de ir todos os dias para tirar suas conclusões e refletir.
Chegou naquela casa grande e antiga, sorveu um gole de seu café quente e amargo enquanto ouvia aquela notas de Tom, e lembrava daqueles olhos que a encaravam naquela noite, desde a vinda dentro do carro. Aqueles olhos profundos que ela não conseguia tirar dos pensamentos. Havia tantas dúvidas que faziam a cabeça dela girar. Um "será" a perseguira durante toda a noite.
Mas ela sabia que não podia mais perder seu tempo pensando naqueles olhares. Tomou mais um gole de seu café e num fio de segundo deu uma olhadela, só por ver, e os olhos ainda não haviam parado de fitá-la.
Mas que diabos, ela pensou, e sorriu.
Lembrou do beijo... Aquele beijo apaixonado que ele havia dado nela sem que ela pudesse se defender, e ela adorou. Não podia, mas adorou aquele beijo cheio de paixão.
Ele também estava confuso pois era um desses rapazes como uns poucos que a gente vê, com sua imaculada moral. Ele gostava de fazer o que era certo e isso definitivamente não era, mas ele estava apaixonado e nada mais podia fazer pra se defender dessa paixão proibida.
Ela se sentia atraída por ele ao extremo, de modo que às vezes deixava isso aparecer para outros além dele, e isso estava ficando perigoso.
Deu mais uma olhadela, e os olhos continuavam ali no mesmo lugar, olhando pra ela com aquela admiração que a fazia corar. Baixou os olhos, não sabia mais o que fazer com aquela situação, ela era comprometida e ele não, mas ele sabia dos seus limites e mesmo assim, ou talvez por causa disso, ela achava que estava se apaixonando por ele também.
Sentia coisas estranhas na barriga quando ele entrava e a vontade de agarrá-lo se misturava com a vontade de não perder o noivo que ela tanto gostava.
Ouviu um sussurro em seu ouvido, um vulto por trás dela,
- Me encontra no jardim.
E ela foi, sorrateira ao encontro dele.
Beijaram-se como se o mundo fosse acabar ali, enquanto a reunião lá dentro continuava e o som alto das gargalhadas era ressoante. Voltou para dentro, trocou mais longos olhares com ele e pediu ao noivo para ir embora.
Dormiu e sonhou com ele, esse estranho que agora invadira sua mente.
Levantou cedo no outro dia, a cabeça girando de confusão, tomou um banho e foi trabalhar. Saiu junto com o noivo, como faziam todos os dias.
No ponto de ônibus seus caminhos se separavam e ela o beijou com vontade. Sentia-se culpada, ela gostava muito dele e em breve iam se casar. Era uma relação boa, apesar de meio turbulenta e afinal, ela o amava realmente.
No caminho para o seu trabalho recebeu uma mensagem de texto: "Já estou com saudades. Te espero as 17h aqui em casa. Beijos, linda!". Era ele. Ai, meu Deus, por que esse homem a atormentava? Porque mexia tanto com ela? Ele estava tirando a paz que ela sempre teve! E se o noivo descobrisse? Ai, meu Deus!
Apagou a mensagem na hora.
Ela intercalava os pensamentos e os sentimentos confusos entre o noivo e o outro.
As 17h em ponto ela estava na casa dele, e entrou o beijando fogosamente. Ele havia preparado um lanche da tarde com pães e vinhos e eles ficaram lá até as 19h30min, quando ela voltou para casa, feliz, apaixonada, revigorada. Parecia que ele a fazia esquecer dos problemas.
Parecia que ele, de alguma maneira fazia a relação dela com o seu noivo melhorar.
Ela parava de se dedicar tanto ao relacionamento e seu noivo ao sentir isso, dedicava-se um pouco mais. Era exatamente o que eles precisavam há anos! Menos dela, mais dele.
Um mês depois ela se casou numa linda cerimônia, ele estava lá, como padrinho do noivo. Eles se olharam muitas vezes durante o casamento.
Ela continuou fazendo suas visitas semanalmente a ele, esse amigo colorido e cordial padrinho de seu noivo, e assim sua vida era satisfatória como nunca foi.
O coração dela não havia sido feito para amar um só homem, ela devia isso a ela mesma, já que ela jamais se permitira viver sem se dedicar demais ao outro.
E agora que ela se permitia, nada podia ser mais feliz.
Ela era boa o bastante sim, e enfim ela sabia.

2 comentários:

  1. Adoro a minina Bárbula Contista!
    continue...continue...continue...
    bj

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  2. UI!
    Que coisa mais linda...e intensa!!!
    Bjooo

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