terça-feira, 29 de julho de 2014

Amolenga

Acordou com os braços dele enroscados, amarrados nela. Suspiros e sorrisos, cócegas e pés gelados.
Abraços com jeito de borboletas no estômago. Beijos com sabor de chocolate em calda quente.O coração entregue, fremente.
Gargalhadas que há tempos não via em si. Sons de um coração saltitante. Cores e luzes brilhantes. Era ela alegria. Era ela maçã verde. Era agora radiante.
E nesse súbito e desencontrado encontro, onde nada mais existia, exceto os pares de retina apaixonados, mais ainda, as bocas que se suplicavam.
Os olhos ficaram para depois. Santos retificados, e o amor que chegou de pronto no tempo das canções.
Beijos com um só riso, ela se aconchegou logo em quase nada - e que era tudo - Fez de um abraço, paraíso.
Ainda que tivesse anos para aproveitar à beira mar, sozinha no aprendizado do seu ser, caminhou na direção dessa descoberta nele, e decifrou aquela beleza quente e morena de ter. De um jeito tão pouco usual, encontrou ele a descobrindo numa esfera real, encontrou açúcar, doçura, carinhos e seda pura.  Olhos fechadinhos e sabor de fruta madura.
Nesse lugar deles a poesia não está nos versos, mas sim em cada gesto e no universo daquele olhar.
Ela veio do ar, ela veio para amar.
.
.
Ele também.

Amarelado

Hoje encontrei teu cheiro
Numa camiseta cinza
Perdida em meu armário
Tinha o odor embolorado
Ocre musguento e fétido
De amor esquecido há tempos
Na geladeira
O quase é corrosivo o suficiente para me causar dor. A incerteza e o talvez são crueis demais. Palavra contra palavra, eu não quero acreditar. Prefiro continuar submersa na argila. Não posso suportar o confronto pueril que me faria pequena demais, pequena demais para continuar. O grito continuará estancado logo abaixo de minhas cordas vocais, serei forte e cuidadosa para não deixá-lo escapar. Por mais que meu coração sufoque, por mais que o enjoo tome conta de mim, não vou me submeter. Estou cansada demais, carente demais, sozinha demais.

Um solitário nômade no moinho.

Já não há mais motivos para querer ficar, querer voltar, querer estar. 
As distâncias são grandes, muito grandes. E as viagens são muito longas e cansativas. 
Não pensar o por quê de querer ficar é quase como ignorar o percurso do tempo, que ele insiste em jogar na cara, dando tapas que doem. E que esses sim, permanecem.  
Não adianta olhar para o retrovisor e ver uma bela cidade iluminada, querer ficar, e seguir em frente.
Devorar livros para esquecer o presente, se jogar no trabalho que antes satisfazia e hoje em nada ajuda a rotina para desviar o trajeto maldoso que a mente insiste em procurar.
Comer tudo o que der vontade, lutando contra o funcionamento daqueles órgãos já escaldados pelo excesso.
Fugir. Daquela casa, daquela cidade, daquele estado, daquele país.
Olhar o gordo contra-cheque e não conseguir imaginar um sequer motivo para sorrir.
E aquelas velas numeradas em cima do bolo sentenciando o tempo de morte.
Fracassar sem entender. Se esforçar e perder. Traduzir a bíblia do latim para o francês, para que a saudade não sufoque, para que o coração não congele dentro da fogueira.
Depois de tanto vazio, só resta vazio. Mesmo que os dias passem e a estopa seja grossa, o vazio continuará lá, determinando para sempre a existência destes dias cruéis.
Procura-se um esboço de sorriso no espelho, mas é o travesseiro quem limpa as lágrimas recorrentes.
Solidão e medo na sempre companheira mala pequena.
De tudo, apenas dois trunfos. Dois companheiros.
Então ama, bebe e cala.
Vai, pára na esquina, passagem na mão, olhos na cidade. Acende seu cigarro de palha. 
E anda.

Pedido negado.


De tudo que penso, o sentimento me muda.
Ontem te amei, hoje já acordei sem te gostar.
Tanto fiz em te elogiar que repudiei.
Você sempre igual, pontual em rimas sem par.
-
Eu a festejar o meu atraso, e você a me encarar.
Eu a procurar passar os ponteiros rapidamente,
Você num suspiro conta os segundos devagar.
Eu pele e cheiro, você relâmpago a se apagar.
-
Eu com medo do tempo não passar.
Mas você é o dono do tempo.
O mensageiro que veio me avisar.
Que hoje as horas serão do vento;
-
Oh, meu caro amigo!
Faz do meu castigo alento,
Meu relógio querido
Faça, por favor, as horas passar.

Ambiguidade


Tenho estado calado.

Um ser alado.
No peito nu,
dois lados.
A menina angelical.
O ódio destilado.
A pressa me impregna,
de tal modo que paro.
Meio morta, meio interrogação.
Ninguém agora faz a menção
Dos dias desiguais que se passam.
A porta do quarto que não fecha.
O buraco da fechadura macabro
Que aos poucos me revela.
E o destino que é traçado,
naquele mapa amassado
Foi descoberto, foi amaldiçoado.
Por mil bruxas e profetas
Que ao meu lado,
De anjos andam disfarçados.

Au moment de mon départ.

Acontece que agora
Eu encontrei este espaço
Entre o amor e a dor
Entre a cruz e a majestade

Por dias e noites indaguei
Que sentimento ardente seria este
E vieram anjos que disseram:
"Chame, oh Deus, de saudade."

É por isto, senhoras e senhores
Da cidade pequena com língua grande
Das casas com ouvidos gigantes
Com avidez pela novidade

Que lhes digo, estou de partida
Vou e não volto para este circo brilhante
Deixo para trás o futuro que não chegou
Os dias contados de um caminhante

Deixo a inveja, a cobiça e algumas cartas de amor
Deixo a rotina, o amor de uns, a razão que não me quis
Vou-me de mochila, de ansiedade, e piso no acelerador
Vou com a sina de ser mais que aprendiz

Vou e vou de uma vez,
Por isso dou esta festa
Não chore e conte até três
Beba com pressa, depressa

Brinda ao deboche e ao calor
Que o álcool afrouxa o entendimento
Das coisas do coração, da paixão, do amor
Aprisiona a mente e devora o pensamento

Faz o melhor papel de apaziguador
Não toque, não impeça, não minta assim
Me deixa ir e ser feliz, por favor
Que agora me despeço de ti e de mim

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Para Gui.

Hoje, pela primeira vez em muito tempo, eu chorei.
Chorei de saudades de você, de te ouvir me chamar de minha nega, de ficar horas pendurada no telefone com você, você me fazendo rir feito louca e eu no meu pequeníssimo apartamento sorrindo só por ter você na minha vida.
Saudades dos açaís que eu e você tomamos juntos, só nós dois. E do quanto você me ensinou sobre a sua vida de artista.  Daquele dia que carregamos aquelas molduras de 100kg -cada- por Copacabana inteiro, porque você precisava delas com urgência. E com pena, você pegou 4 das 5 e me deixou com uma só, apesar de seus músculos não serem tão fortes. Você tremia e suava, mas não deixou eu carregar nada mais do que uma pequena moldura.
Saudades dos seus abraços, e de quando beijava minha bochecha. Saudades do seu sotaque baiano e quando falava de mim como se eu fosse uma terceira pessoa:
-Bárbara é linda. Bárbara quando entra, chama a atenção. Bárbara é estabanada.
Saudade de uma amizade que, como eu sempre disse, eu jamais havia visto igual. Amor verdadeiro, amizade verdadeira, tua alma de artista preenchendo minha branca tela. Teu amor, teu afeto, teu carinho.
Saudades de como sentávamos naquela boteco de Copacabana pra tomar um suco e depois íamos pro seu apê comendo aqueles biscoitos alemães que seu namorado comissário trazia toda a semana.
Saudades das tantas vezes em que me vi perdida, e você me dava a mão, os braços e abraços e eu me encontrava com a sua ajuda, com a sua seta, com o dinheiro que você me emprestava ou com a proposta de emprego que você me fez e que não deu tempo de colocarmos em prática.
Saudades de ter você por perto, mesmo longe, em seus infinitos telefonemas e emails, com seus maravilhosos conselhos, com nossas idas aos teatros e galerias de arte. Eu sinto falta de trazer uma nova pedrinha a cada vez que volto do Sul, pra complementar a sua coleção, que hoje já deve ter virado pó.
Saudades daquele "adeus ano velho, feliz ano novo" que cantamos só eu e você, desertos por dentro em uma praia lotada.
Saudades daquele áudio que gravamos no celular juntos e eu perdi quando o aparelho quebrou no meio. Saudades de te ouvir cantar e das músicas que você lindamente fazia.
Mas eu sei que sua morte não foi em vão, porque em mim você sempre estará eternizado. Falarei de você e do seu sucesso artístico e pessoal para meu filho, para meus netos.
Como eu sinto a sua falta, meu amigo.
Eu amo você, para sempre amarei. E estas lágrimas que caem hoje desesperadamente são apenas gratidão por eu ter tido a sorte de um dia ter tido você bem perto de mim.
Hoje, um ano e quatro meses sem você, e eu só precisava desabafar.
Daqui te mando um abraço muito apertado, igual os que você costumava me dar, com todo o amor do mundo.

Da sua neguinha.




In memorian de Fagner Fonseca - Gui.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Ultimamente,

Bocas compostas por morfina,

A saudade que aparece clandestina,

Cálidas flores em botões distribuídas,

O mar azul que nos espera, com clareza genuína,

Um paraíso afrodisíaco no quarto, em despedida.

O enlace de duas mãos que se vão, de saída.

Ultimamente, a nossa vida.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Gelou e choveu. O inverno dava sua graça beijando minhas bochechas enquanto você também gelado, sumia de mim aos poucos encarando face a face uma verdade que desta vez, tinha que ser dita.
Você sumia, ia desaparecendo no horizonte, caminhando no seu passo lento e calmo e suspirando paz como só você sabe fazer.
Eu fitava a cena, o horizonte, os pássaros e a chuva de uma manhã clara que alumiava os meus fartos pensamentos distorcidos. Dá uma puta dor fodida isso, de doer os ossos como naquela noite fria em que tínhamos poucas cobertas e as janelas estavam com lençóis pendurados pra impedir, sem sucesso, que o vento entrasse em nosso bagunçado quarto provisório. Uma puta dor fodida.
Eu tinha gravado na minha memória aquela tarde de muito calor e sol, em um verão divertido, que eu tomei 3 ou 9 banhos de mangueira e onde bebemos cerveja quente e falamos sobre bebidas, cigarros, cabelos, falta de cabelos, Ozzy, tornozelos torcidos, amor, sexo e bilhetes em papéis de pão. E rimos como crianças, escrevemos nas mãos como crianças, bebemos como se o mundo fosse acabar.
Enquanto eu via você sumir naquela estrada linear, eu pensava naquela tarde de sol, e confesso, senti agulhadas sutis em determinado lugar dentro do peito.
Por um breve momento, eu quis esquecer, mas Bon Iver invadiu o fone de ouvido.
''Amor magrelo, dure pelo menos até o final do ano'', e eu lembrei que aquele sofá-cama azul marinho era tão duro que ainda havia um calo em minhas costas desde a noite em que você subiu em cima de mim ao som de ''Losing my religion".  Eu lembro de rir mentalmente de tamanha ironia, eu perdendo minha religião, tentando me igualar a você, e eu sei que não consigo fazer isso. E a sua religião, que eu me lembre, é amor. Um amor bonito.
 E no auge da minha agonia, eu citava Shakespeare, porque realmente, não há Pepsi-Cola que sacie a delícia dos seus beijos. Eu sinto tanto por ter alguém roubando o melhor de você. Eu, um sócio, os cigarros ou o álcool.
Ne me quitte pas. E o quentão desceu tão redondo quanto aquela vodka gelada da primeira noite em que eu não descansei enquanto não bebi o resto do litro. O quentão aqueceu a pele, a alma e as partes mais geladas dentro do peito. Mais uns goles, subiu um negócio aqui dentro que me fazia querer te beijar e eu te vi ali, lindo me olhando, enquanto entalava dentro da minha garganta um pedaço de cravo que desceu arranhando até os ossos. Eu ri, pra disfarçar, parecendo uma gazela bêbada fazendo sons esquisitos, e enquanto o cravo desaparecia de vista, a sanidade tomava de novo seu lugar em meu cérebro.
Isso me lembra que só dessa vez, só nessa história, não fui eu quem vomitou no primeiro beijo ou ao ouvir eu te amo, e sim você, ao ouvir um abafado James Reyne. O que torna tudo mais diferente ainda.
Hoje a noite não tem luar, então nós dançamos em um quarto escuro, com a música baixinha e os pés lentos. Me abraça forte e diz mais uma vez que estamos bem. E nós abraçamos.
"Olha: o cachorro voltou a latir, eu catei os papéis do banheiro, você não volta mais, eu gosto de Pantera, eu também, mas porque caralho tem tanta Adele aqui? Galinha poedeira, não quebrei nada ainda, vou no mercado comprar água, esqueci a água, quero café, tô com azia, beijei a Paula, soquei a Renata, casei com Antônio, ainda vejo Roberto, acabou a bateria, os cigarros, o café. Arruma a cama, liga o carro".
Num movimento brusco, um abraço muito forte e um beijo longo, pra logo em seguida tomar mais cautela, virar o rosto e falar de como aquele sofá-cama pode ser duro. Num movimento brusco, um resquício, uma fagulha de alguma coisa doce saindo dos olhos. Num movimento nem tão brusco, o aperto e o desespero de arregalar os olhos para ir ao banheiro.
Lobo da estepe acredito na tua dor, chorava o celular enquanto eu te olhava dormir. Um anjo. Até começar a roncar feito o motor do caminhão das galinhas.
"Esse azar sobre você, como uma nuvem que não chove", eu ouvia. E ria.
"Você lembra de tudo?" - Incontáveis vezes você perguntou.
 Memórias presentes, ausentes, vívidas e póstumas.
Eu avisei, ela avisou, eles avisaram, você mesmo se avisou.
É essa minha puta necessidade de ir embora. Esse taquicardia que começa quando se prolonga o tempo nesse lugar onde eu morri pela primeira vez.
Essa corrida contra o ostracismo dos amores e tudo que deles provém. Mágoas, dores, rotinas e excessos.
Pode ser que eu não encontre nessa ponte o endereço.
Fugaz! Cara, é isso.
 É o fugaz que me comove, que me faz querer ficar só um pouco mais nessa estrada linear, pra ver o pôr-do-sol do horizonte enquanto você caminha pra longe de mim e eu jogo a bituca ainda acesa no chão, queimando qualquer coisa por perto. O fugaz e o café.
É tudo tão inconstante e breve, mas bonito, como a rima interna daquele samba que você odiou enquanto eu ouvia, branca de nostalgia.
Mas pelo menos dessa vez não ouve meias verdades ou uma fé imensa.
Amo, bebo, calo e vou embora. Porque nosso amor que não esqueço, e que teve seu começo numa festa de São João,  morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete. Sem luar, sem violão. Mas sobrou aquele Camel amassado, um isqueiro roubado e aquele calo dolorido nas costas.
E mais uma vez, como em outras histórias antigas, eu volto a cantar 'Somebody that I used know', enquanto andamos lentamente em direções contrárias nessa estrada.
Eu de casaco xadrez pra aquecer do frio. Você com a cabeça nua, pra gelar a alma.


(Eu roubei esses versos musicais como quem rouba pão da padaria).

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Quelqu'un m'a dit
Que tu m'aimais encore
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore
Serait ce possible alors

Mais qui est ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais
Je ne me souviens plus c'était tard dans la nuit
J'entend encore la voix, mais je ne vois plus les traits
Il vous aime, c'est secret, lui dites pas que j'vous l'ai dit

terça-feira, 10 de junho de 2014

Bebi café gelado, engordei um quilo. Ouvi uma história de amor e lixei a unha do mindinho esquerdo. Escolhi tênis para usar. Apaguei aquele e-mail que nunca li e não era spam. Pensei em você algumas vezes, mas não quero falar disso.

Assisti a um documentário sobre crianças psicopatas e descobri uma banda nova por sugestão do youtube. Tomei remédio pontualmente ao meio dia, como nunca faço. Quis beber cerveja no almoço. Entendi, mais uma vez, porque pessoas se drogam quando estão tristes. Embora eu não adie meu sofrimento. Cheguei à conclusão que a intensidade da dor ameniza o tempo que ela permanece na cabeça. E não vou chorar. Porque não consigo. E prefiro evitar o assunto.

Passei batom vermelho, mas escolhi um brinco pequeno. Dei bom dia ao meu irmão, as plantas do jardim. Fui feliz por cinco segundos. Pensei em sorvete de pistache, putaria, Tom Waits, teoria da conspiração e Ask. Comprei um quilo de patinho. Abri a geladeira, bem rápido, porque está frio e tive aquele medo absurdo de que eu congelasse. Joguei fora uma banana preta, que eu comprei há três semanas. Dormi três horas. Olhei pro celular algumas vezes, até que finalmente ele descarregou. Por fadiga, desprezo, medo, mentira, desinteresse, outra mulher mais gostosa ou algo que eu tenha feito e não saiba. Mas não vou pensar nisso. Nem beber em homenagem a isso. Por que não quero valorizar o momento. E também não quero falar sobre ele.

Escrevi uma poesia. Apaguei a poesia. Me olhei no espelho por mais tempo do que o normal, procurei brilho no meu rosto; nada. Me senti mais cansada do que o normal, com menos fome do que o normal e meu humor estava cabisbaixo. Tive medo de morder pessoas. Pensei mais do que escrevi. Escrevi mais do que falei. Baixei três episódios de uma série. Aquela. Aquela que. Esquece. Não quero resgatar nada. Nem falar de nada. Quero acordar no mês que vem. Quero acordar livre disso. Queria poder ligar o som para ouvir uma música animada. Mas.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Cotidiano

Acordei com a cabeça em ordem e os pés ao contrário.
É mais um dia do tem-de-ser sem sequer pensar no e-se-assim-não-for.
Lavei o sono com água fria e um suposto repelente de borbulhas. Suposto.
O café preto de costume, a letargia do amanhecer e o fardo pesado de mais um dia a percorrer. Terá que ser mesmo assim?
Nunca gostei de verdades absolutas; e mais verdade é que também sempre me perdi no meio da relatividade, pendente entre os vários lados sem saber qual deles não tinha nariz de pinóquio. Bailarina no limbo, bem sei.
A questão é que o tem de ser deixa-me enjoada pois não lhe encontro as raízes. Não combina com o meu par de meias, nem brincos tampouco. Não se dá comigo. Não sei.
Cabe-me melhor o eu-assim-quero. Hoje fico por aqui.
Mas maldita varinha de condão que nos conduz e que pedras nos põe no caminho, nem tanto para nelas tropeçar, mas para decidir um destino.
Nessa altura espero pelo amanhã, que um sinal nele apareça. Pois decisões nunca foram comigo.
Não as quero nem em fios de promessas enroladas.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

 

Era fria como um destes continentes árticos que faz nossa pele agulhar de dor.
Tinha cubos de gelo incrustados na carne, e sentia orgulho de ser assim.
Ela era também fugaz como aquele vento frio que bagunça nossos cabelos e faz nosso nariz ficar vermelho.
Perpendicular a isso, era afável. Intensa.
Doava carinhos demais, palavras doces, sorrisos. Gostava de recebê-los.
Tinha sempre estes dois lados, e os dois eram fortes demais para que um aparecesse mais que o outro, então os dois eram predominantes. Ela era duas, e estas duas tinham pólos opostos.
Difícil entendê-la.
Era agridoce. Discreta e estabanada. Intensa e sutil. Um pouco louca, um pouco sanidade. Um quadro típico metamórfico de dualidades reversas. E adorava ser isso.
Era aventureira, gostava do perigo, do risco, de se atirar de um avião com um pára-quedas e de cair em queda livre. Amava sentir correndo em suas veias a adrenalina. Idolatrava o prazer de viver intensamente.
Ela era a fuga do fugaz prazer que o amor oferecia. Era fugitiva.
Não era do tipo que andava de mãos dadas como discretas algemas cabíveis na sociedade. Não gostava de receber flores bonitas que já estavam morrendo com o passar das horas. Não queria a luz das velas que se apagariam com o sopro de um sussurro.
Quando isso acontecia, ela desaparecia.
Deixando para trás algumas lembranças doces do seu jeito maluco, dos seus rastros de lama no tapete, do perfume de flores no casaco, dos fios de cabelo no sofá, da música que cantava sem saber, das gargalhadas banais, da alegria medonha de quem faz o errado parecer certo e faz o certo de forma errada.
Estas lembranças ficariam guardadas nas memórias ou nas gavetas de alguém.
E ela voltaria a aparecer, gargalhar, cantar pelas avenidas de outro alguém.
E quando tudo parecesse maravilhoso de novo naquele novo mundo, algo a inquietaria, a faria mover os pés, as pernas e os braços sem olhar para trás em direção ao cais, ao aeroporto.
Mostrando o passaporte ela novamente diria sorrindo:

- Preciso de uma passagem só de ida, por favor.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

 — E tu, por que desvia o olhar? Tem vergonha de mim?


(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarrá-los em qualquer pedra no chão e me salvar desse sentimento de apego. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, 
sem
 sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos).


— Ah, eu sou tímida.

sábado, 10 de maio de 2014

Você, de novo.

Algum dia, quando eu estiver terrivelmente chateada
Quando o mundo estiver frio
Eu me sentirei bem só de pensar em você
E como você estava aquela noite
Você é tão adorável, com seu sorriso tão caloroso
E sua bochecha tão macia
A cada palavra que sai de sua boca, sua ternura cresce
Levando meus medos embora
E aquela risada que enruga seu nariz
Toca meu coração bobo
Sim, você é adorável,
nunca,
jamais
mude
Mantenha esse charme que me tira o fôlego
Pois eu te amo;

Exatamente como você está essa noite.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Quando toca,
Tão bonito
No particular,
nosso mundo,
Eu assisto.
Um quase segredo,
Tu me canta
Encanta.
Eu fujo e ouço ao fundo:
Te amo.
Então volto prum beijo,
De bobo te chamo.
E o bobo canta e toca
Essa música pra mim
"Querubim" - ele pede -
"Toca o coração dessa moça andante."
Mas quem toca é ele,
Quando o primeiro acorde sai
E ele canta com um sorriso,
o corpo dançante.
Todo amor do mundo
E ele ama ela.
Ela ama ele,
mas seu coração é vagabundo.

domingo, 6 de abril de 2014

Parei de guardar minhas mágoas como anéis de ouro. Com extremo cuidado e apego.
Joguei no lixo do meu quarto verde as memórias, as desilusões, as coisas ruins.
Me libertei.
Pra começar de novo é assim.
A gente vai ganhando liberdade, ganhando asas, olhando pra frente e principalmente para os lados.
A gente tem que estar leve pra poder perceber as nuances de um olhar, nas primeiras (e segundas) intenções que se escondem por trás de um sorriso malicioso, de um abraço demorado, de um beijo no cantinho da boca (quase como que roubado).
Quando a gente começa a perceber esse tipo de coisa, é porque esta voando outra vez. Leve, leve.

Sou a primeira pessoa do meu plural, confusa.
E não sei dizer se estou atrasada pelo compasso que ando, ou se apenas a hora é certa e tudo tem seu tempo.
Tenho tempo.
Tenho sonhos pontuais, desejos banais, às vezes casuais.
Quero ter alguns filhos,e saio por aí dizendo que não.
Meu café é forte, meu açúcar é adoçante, sem afeto, sem calmante.
Escrevo simples para não perder a palavra.
Dou suspiros na madrugada. Atiro um beijo pra pessoa errada.


Parece que foi ontem quando arrumei as malas e desapareci.
Deixando pra trás todas as pessoas do mundo.
As chatas, as acéfalas e também as tediosas. Pois todas elas escondiam espinhos em suas falas, em seus olhares e em seus gestos.
E nunca fui boa em desviar de farpas, quiçá espinhos.
Arrumei as malas e desapareci. A casa da árvore, então, me acolheu. Figura onírica de minha infância, era a casa.
Do alto dela, eu imaginava a preocupação de todos ao darem por meu sumiço.
Mas, com o passar do tempo, calculei que se acostumariam com minha ausência.
A tudo se acostuma.


Às vezes dor não é só suspiro profundo.
Tem dia que não tem sol, tem dia que a chuva alaga onde nem tinha lago nem poço, tem dia que gelo vira água quando não derretia.
Nem todo sorriso é de alegria.
Tem mosquito matando gente e de repente fica tudo sem controle.
De tudo o que eu acho metade pode valer, outra metade o outro não crê.
Só sei que de perto ninguém é normal e de longe todo mundo é igual.


Olho para você. Eu olho bem para você. A única coisa que pergunto,"onde diabos está?", inútil soa. Porque estava bem ali, mas parecia não estar.
Anteontem à noite quando não parecia tão próxima a hora da morte, recheei meu peito com estopa grossa e pensei que, estofado, não se ocuparia de outras bolas de algodão, de outros retalhos, de outros panos velhos, mas foi só mais um engano, um engano cotidiano, desses que acontecem nas tardes quentes em que prestamos mais atenção ao bolo que está sendo assado do que aos chiados estáticos da nossa pele. 

De nada adiantou promover um canto confortável e macio para alguém, criar teias intrincadas de sentimentos, furtar para si o que ela tem de mais genuíno e doar para ela o que você tem de mais quente, de mais borbulhante, de mais perigoso; 
Isso não adianta nada, os tecidos seguem agregando seus pedaços perdidos no mundo, incorporando para si os milhões de fios de seda, de algodão, de lã, de linho e constituindo lá dentro a estopa que protege meu peito das friagens, das bruscas quedas de temperatura, das ventanias, das geadas e de toda a sorte de variações climáticas possíveis. 
Dessa vez, e que se ressalte: só dessa vez, você não era pano, era o contrário disso, era o delírio de uma tarde sem sedativos, era a tentativa do último gole de cachaça que faz voltar à terra todo oresto do litro, era a gota de chuva que pega singularmente na nuca e escorre pelas costas por dentro do casaco, era saudade que deita o mais forte dos homens em febre terçã.

- você ventou em mim.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Não quero ser só tua
Não te quero só pra mim
Mas meu coração sempre será só teu,
E gosto muito de te ver,
Leãozinho.