quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Feliz ano novo.



Feliz excesso na bebida,
Feliz abraço fingido no parente insuportável.
Feliz nova esperança, que já é amarela de tão antiga.
Boa sorte nas sete ondas,
Boa sorte na próxima vida.
Que é o próximo ano que ronda,
Como se fosse uma outra partida.
Mas no fim são sempre os mesmos dados,
A mesma sorte.
Que se divide quando os minutos mudam.
Boa sorte na hipocrisia,
de que um novo ano será um ano novo.
E feliz morte!
Do velho, ocre e fétido.
Que deixas ir em partida,
Enquanto o vento sopra e bate na porta,
A esperança que brota desinibida.
Falsa.
Porém, protegida.
Por estar presente em todos neste último dia.
Ah, os dias finais.
Sua data preferida.
Pois faz somente o que  lhe é capaz,
Estancar o sangue da ferida.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

À tout le monde

À todo mundo.

Não me lembro onde eu estava
Eu percebi que a vida era um jogo
Quanto mais sério eu entendi as coisas
Mais difíceis as regras se tornaram
Eu não tinha idéia do que isso custaria
Minha vida passou diante de meus olhos
Descobri o quão pouco eu realizei
Todos os meus planos negaram

Então enquanto estiverem lendo isso, saibam meus amigos
Que eu adoraria ficar com todos vocês
Por favor sorriam quando pensarem em mim
Meu corpo se foi, isso é tudo

A todo mundo
A todos meus amigos
Eu os amo

Eu devo partir
Essas são as ultimas palavras
Que irei sempre falar
E elas irão me libertar

Se meu coração ainda estivesse vivo
Eu sei que certamente ele partiria
E minhas recordações deixadas com você
Não há mais nada a dizer

Seguir adiante é uma coisa simples
O difícil é, o que deixar para trás
Você sabe, o sono já não sente mais dor
E a vida está cicatrizada

A todo mundo
A todos meus amigos
Eu os amo

Eu devo partir
Essas são as ultimas palavras
Que irei sempre falar
E elas irão me libertar

Então, enquanto você lê isto fique sabendo, meus amigos
Eu gostaria de estar com vocês todos
Por favor, sorrir, sorrir quando você pensa em mim
Meu corpo se foi e isso é tudo

A todo mundo
A todos meus amigos
Eu os amo

Eu devo partir
Essas são as ultimas palavras
Que irei sempre falar
E elas irão me libertar


(Megadeth).

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um solitário nômade no moinho.

Já não há mais motivos para querer ficar, querer voltar, querer estar.
As distâncias são grandes, muito grandes. E as viagens são muito longas e cansativas.
Não pensar o por quê de querer ficar é quase como ignorar o percurso do tempo, que ele insiste em jogar na cara, dando tapas que doem. E que esses sim, permanecem. 
Não adianta olhar para o retrovisor e ver uma bela cidade iluminada, querer ficar, e seguir em frente.
Devorar livros para esquecer o presente, se jogar no trabalho que antes satisfazia e hoje em nada ajuda a rotina para desviar o trajeto maldoso que a mente insiste em procurar.
Comer tudo o que der vontade, lutando contra o funcionamento daqueles órgãos já escaldados pelo excesso.
Fugir. Daquela casa, daquela cidade, daquele estado, daquele país.
Olhar o gordo contra-cheque e não conseguir imaginar um sequer motivo para sorrir.
E aquelas velas numeradas em cima do bolo sentenciando o tempo de morte.
Fracassar sem entender. Se esforçar e perder. Traduzir a bíblia do latim para o francês, para que a saudade não sufoque, para que o coração não congele dentro da fogueira.
Depois de tanto vazio, só resta vazio. Mesmo que os dias passem e a estopa seja grossa, o vazio continuará lá, determinando para sempre a existência destes dias cruéis.
Procura-se um esboço de sorriso no espelho, mas é o travesseiro quem limpa as lágrimas recorrentes.
Solidão e medo na sempre companheira mala pequena.
De tudo, apenas dois trunfos. Dois companheiros.
Então ama, bebe e cala.
Vai, pára na esquina, passagem na mão, olhos na cidade. Acende seu cigarro de palha.
E anda.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Iminência

O quase é corrosivo o suficiente para me causar dor. A incerteza e o talvez são crueis demais. Palavra contra palavra, eu não quero acreditar. Prefiro continuar submersa na argila. Não posso suportar o confronto pueril que me faria pequena demais, pequena demais para continuar. O grito continuará estancado logo abaixo de minhas cordas vocais, serei forte e cuidadosa para não deixá-lo escapar. Por mais que meu coração sufoque, por mais que o enjôo tome conta de mim, não vou me submeter. Estou cansada demais, carente demais, sozinha demais.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Rosa dos ventos.

O tempo parou encravado no ponteiro
Num número que não significa nada
Não dá o norte, nem a direção da fada.
Não diz o dia, não diz a hora,
Nem sei se bate o coração
Se o dia nasceu, ou não
Lá fora, continua o turbilhão
Da massa de um mundo incansável
Que pisa tudo, tudo é chão!

A hora, por certo, já passou
O dia nasceu, entardeceu
Tudo é igual, nada mudou.
A escrita continua a percorrer o mesmo caminho
A erguer-me, a empurrar meus passos
Num rumo incerto, talvez sem destino.

Meus pés já denotam o cansaço.
E meu rosto esconde-se
Nas pinturas coloridas, disfarçado de palhaço
Onde todos riem e o resto pouco importa
E a sorte faz o resto
E o futuro fica longe, ou fica perto?
Talvez seja hoje e nem reparei nos ponteiros.
Talvez dê ouvidos ao vento norte.
Talvez volte a rolar, os dados da sorte!

sábado, 4 de dezembro de 2010

A hora do pranto.

Foi apenas lendo.
Li e senti o coração na garganta. O choro veio forte e rápido, num suspiro dolorido de quem sente saudades.
A voz dele agora tão distante parecia estar gritando em meu ouvido uma de suas músicas.
Ele cantava a minha dor.
Ele sorria, ria em uma imagem em minha cabeça.
Seus  quatorze diferentes personagens secretos eram conhecidos apenas por mim.
E naquele momento, ele estava lá, na distância de um abraço de partida, em sua grama verde e com seu
rouxinol na gaiola escrevendo coisas sobre mim.
Peculiar em todos os aspectos. Na escrita, na música, na beleza, na juventude e na senescência, na quietude e no grito. No metamorfo que só eu reconheceria mesmo que mascarado. Se estivesse rindo e o coração em lágrimas, eu saberia. Se estivesse cantando um samba, mas sofrendo, eu saberia.
Porque ele sempre foi alma de minha alma. A dura carne dividida. A roda do caminhão que carrega minha cruz. Meu amigo, meu irmão, meu chão.
E aquelas letras formariam palavras, que formariam frases, as tais que me fizeram chorar.
Chorar de saudade, chorar da falta daquela [in]sanidade. Chorar pela tua perspicaz filosofia.
Dividir o pão, dormir no chão, abraçar a dor em tardes frias.
Chorar pelo que não veio, gozar do anseio, beber a harmonia.
Temer o vazio, criar o mundo, pintar o quadro da alegria.
Sermos dois, sermos um, não saber viver sem a tua companhia.
Sem você, gélidos momentos de agonia.
Em que a carne não suporta o sobreviver da espada dentro do coração.
Metal que inflama com a saudade, e faz arder a crua lágrima.
Faz o mundo girar lento.
Perde o equilibrio meu peão.


http://matheusocon.blogspot.com/2010/11/minha-janis-minha-joplin.html


Oh Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends
Worked hard all my lifetime, no help from my friends
So Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?

domingo, 21 de novembro de 2010

Entrei naquele bar sozinha. Era um lugar bonito, com mesas e cadeiras feitas de madeira nobre e escura. A meia luz me deixava confortável, apesar daquela sensação de que algo aconteceria naquela noite.
Sentei na mesa e pedi um dry martini, porque estava uns graus a menos do que habitual para aquela cidade tropical e eu preferia um drinque do que a cerveja de costume. Passou por mim um homem bonito, como aqueles homens dos filmes antigos que tem rostos de porcelana e traços bem traçados e masculinos, uma típica estátua de deus grego. Ele me olhou e sorriu, parou e sentou sem pedir licença na cadeira ao lado. Ele era inteligente, interessante, bonito e tinha a etiqueta de um cavalheiro inglês. Bom demais para ser verdade.
Pediu uma garrafa do melhor vinho ao garçom, e antes mesmo que eu pudesse terminar o meu martíni, ele pediu outro para mim. Perguntou meu nome e o que eu fazia ali sozinha numa noite de sábado, e com cuidado e cordialidade, me disse que moças não devem sentar sozinhas, por isso ele gostaria de sentar e conversar, se assim eu quisesse. Não respondi de imediato, olhei incrédula para aquele ser tão nórdico e educado, e sabendo que nada de tão interessante poderia acontecer, respondi em afirmativa.
Perguntei seu nome com curiosidade extrema, de alguma forma ele me instigava com seu jeito misterioso. Com a sua elegância peculiar, ele sorveu um gole de seu vinho tinto e mudou de assunto, descobrindo com perguntas os segredos de meu complexo âmago.
Tivemos uma longa conversa agradável. Conversamos muito sobre a cidade, sobre filosofias, sobre o futuro, sobre redenção.
Estranhamente ele sabia mais de mim do que podia, sabia coisas obscuras que minha boca não proferia nem a um padre na hora da morte. Sabia se o que diria me afetaria, sabia que se o dissesse de outra forma não, como um psicólogo que examina seu paciente a cada movimento de mãos, braços e pernas, a cada nova expressão facial. Estranho, mas surpreendente.
Meus olhos se perdiam entre as pessoas na meia luz, e por minutos fiquei vidrada naquela vitrola antiga que servia de enfeite e tornava o ambiente aconchegante, vidrada nela, mas com pensamentos longíquos e quinze imagens diferentes passando na minha mente como fotografias.
Mesmo com o meu silêncio, as horas de conversa iam se estendendo com o único objetivo de descobrir o que havia debaixo da máscara silenciosa que encobria meu rosto. Havia em mim um lago cristalino, e a cada gole sorvido de seu vinho tinto ele nadava mais fundo, se aproximando da área remota e muito escura de sua imensidão.
Pediu ao graçom mais um drinque para mim e colocou na junkie box uma das mais tristes bossas para que meus pensamentos se perdessem no vento e meus olhos ficassem distantes mais uma vez.
Como alguém tão estranho poderia saber tanto sobre mim?
Ele discutia sobre assuntos diversos, mas quando falava de mim, sempre tinha uma teoria, então às vezes eu o achava chato, certas vezes irritante, às vezes eu concordava com ele. Mas de certa forma, ele sempre estava certo.
O ponteiro passava rápido, mas o tempo parecia estagnado. Eu não conseguia mais parar de prestar atenção em seus olhos, sua psiqué, sua dialética. E seus argumentos estavam sendo imprescindíveis para a decisão de tantos dos meus planos!
Ele sabia tudo sobre mim, e eu sequer sabia seu nome, mas isso não importava mais. Eu só queria que ele estivesse perto de mim para sempre como naquele dia ele estava. Eu queria suas idéias.
Na verdade, comecei a perceber que eu necessitava delas para a minha sobrevivência.
Onde ele esteve esse tempo todo? Em que lugar escondido do mundo ele estava para que esse encontro acontecesse somente nesta noite solitária?
- Eu sempre estive mais perto do que você pensa. - Ele disse com seu charme antológico e seu sorriso torto.
Apaixonante.
Quando enfim o garçom recolheu o último copo vazio e a música parou de tocar, eu perguntei o seu nome nervosa e titubeando:
- Quem é você, afinal? -
- Eu sou parte de você, sou um pedaço de sua alma, sou a qualidade da sua mente, eu sou suas três dimensões...
Eu sou a sua consciência.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Prata.

Um par de dedos enfeitados. 

A chuva, a melancolia, o concreto, o azul discreto, a salina na boca, o tempo correndo com o vento.

Tudo fica tão mais bonito com meu coração batendo no ritmo do teu peito. 

Com tua mão direita pesando na minha mão direita, guiando os passos também direitos que damos em direção à nós mesmos. 

Nossa juventude contra a direção, nosso riso deitado no colchão, nosso amor em teu lençol azul cor-de-giz. 

Nossa matéria se desfaçelando em mil grãos desabotoando o terno italiano, despindo a saudade.

Nossa maestria nos dedos carinhosos, majestosos de quem sabe ser em dupla aprendiz.

A ti, minha lealdade. 

 

 

 

 

domingo, 14 de novembro de 2010

Subliminar.

Eu parto do pressuposto espiritual de que se estamos neste planeta é porque somos seres involuídos.
Morar aqui é queimar karma, só pode.
Por sermos seres involuídos e infinitamente inferiores, sentimos raiva, paixão, ciúme e (por que não?) inveja. Sim, todos sentimos inveja, uns mais, outros menos.
Tem gente que libera isso em forma de olho gordo, tem gente que aceita a inveja e guarda. Eu não tenho muitas invejas negras, a maioria delas são brancas e brandas, como dos moradores de jericoacoara ou de Paris, ou de quem tem tatuagens lindas, ou de quem sabe se vestir bem.
Mas ele me causa uma inveja negra fudida, não sei nem medir esse tamanho de inveja profunda e raivosa que se alimenta dos meus mais genuínos e puros desejos.
Me peguei o xingando outro dia, só porque tenho inveja.
Tenho inveja que ele fica o dia inteiro escrevendo, tenho inveja que os pais dele têm dinheiro para mantê-lo em casa com a mais bela biblioteca do mundo, com os mais nobres autores lhe fazendo companhia em sua cadeira confortável de 2678 dólares e com os mais sofisticados utensílios de escrita.
Morro de inveja quando pego meu laptopzinho que me irrita com suas teclas falhas ou quando eu não tenho internet para fazedr pesquisa, morro de inveja quando quero ler aquele livro raro que só se encontraria em algum lugar nórdico inacessível e ele tem em casa e nunca leu, tenho inveja que ele não precisa trabalhar pra pagar as contas e, por isso, tem tempo de fazer leituras, releituras e poesias lindas e saborosas que enchem os olhos e o coração com tanta beleza 'degustável'.
Só pra constar, a gente não se conhece.
Se eu o conhecesse, a inveja se transformaria em orgulho, porque é isso que eu sinto pelos amigos que fazem coisas legais.
Mas eu sei umas coisas da vida dele, eu sei que ele é sociofóbico e tem poucos amigos, eu sei que ele tem depressões e angústias gigantescas, eu sei que a felicidade dele é abstrata e distante. agora me pergunta se eu troco a minha vida de pobre que pega o ônibus todo dia e atrasa faturas e contas, mas que tem amigos tão amigos que lêem qualquer porcaria que eu faço – e ainda elogiam – pela vida dele?
Não troco, não troco, não troco.
Não troco minha vida suada pela vida “fácil” dele por nada neste mundo. não troco as festas frenesi na casa da Kaká ou do Diego, não troco as jantas com 30 pessoas que dividem pratos e talheres sem nojinho, não troco as baladas de 20 reais (e ainda assim bem bêbadas), não troco esse riso frouxo que ganha o coração de sogras e crianças, não troco as noites frescas na varanda movidas a piadas e bobagens por uma vida glamurosa e solitária na super biblioteca nem a pau.

Eu não sei quem me falou um dia que nosso espírito vem ao mundo sabendo do nosso destino. Eu acredito tanto nisso, principalmente quando acontecem dejà vús intensos.
Pelo jeito eu escolhi ter amigos de verdade. E isso não tem conta bancária no mundo que compre.
Aliás, do que eu tava sentindo inveja mesmo?

Nada, absolutamente nada mesmo, paga uma discussão entre eu, Matheus e Zanow sobre as teorias e os teóricos e os paralelos dos escritores da antiguidade para os modernos. Com gente assim na vida, quem precisa de uma Saraiva em casa?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Desate os nós.

Eu tinha quase trinta anos quando cometi um dos maiores erros da minha vida.
Eu era um rapaz bonito, bem-sucedido e que tinha muitos amigos, eu era conhecido e reconhecido.
Porém, minha mãe e eu não nos falávamos mais. Por motivos que até hoje não entendo quais são, ela deixou de me amar. Não me olhava mais nos olhos e queria muito que eu saísse de casa para não ter mais que me aguentar. Eu estava triste, cabisbaixo, e chorava muito por aqueles dias.
Eu tinha uma linda namorada com quem eu compartilhava a minha tristeza. Mas a minha mãe proíbia a entrada dela na minha casa.
Haviam dias em que eu chegava em casa cansado do trabalho, e a única coisa que eu queria era um pouco de atenção e carinho, carinho esse que eu sempre recebi dela, antes da ojeriza. Eu nem exigia tanto, apenas atenção, conversação me bastariam.
Mas tudo o que eu via era o seu olhar de desprezo para mim.
Pouco tempo se passou assim até que a raiva que ela sentia de mim se propagou, e eu além de tristeza, passei a odiar a mulher que eu mais amei na minha vida.
Foi com ela que dei meu primeiro passo.
Foi ela que cortou a minha primeira mecha de cabelo loiro.
Foi ela que fez da colher um avião para que eu sentisse prazer em comer gororobas de beterraba.
E hoje, ela não significa mais nada pra mim.
Como é triste lembrar do bonito que algo ou alguém foram quando esse bonito começa a se deteriorar irremediavelmente.
Um dia, cheguei em casa perdido. Eu tinha discutido com meu chefe, estava triste, minha namorada não atendia o telefone e pra piorar eu havia comido e deixado o meu prato na pia.
Pronto. O prato na pia virou escândalo. Minha mãe me atirou ofensas como quem acerta um punhal no peito alheio, e meu corpo começou a chorar por inteiro de suor e lágrimas.
Já não suportava mais aquela situação.
Corri para o meu quarto e chorei copiosamente. Não conseguia entender porque aquilo estava acontecendo comigo. Liguei o som no mais alto que minhas caixas aguentavam e coloquei a música mais pesada que eu conhecia. Nuvens negras entravam em meu quarto e tomavam conta de meu cérebro, me deixando cego.
Fui até a gaveta onde meu pai guardava seus objetos mais pessoais, peguei seu antigo 38 e com elegância e graça dei um tiro na cabeça, deixando apenas um bilhetinho:


Grande parte da vida que eu possuía foi roubada, vendida ou doada. 
Quanto aos meus restos mortais, suplico encarecidamente; não o torturem com choros, rezas ou velas. É apenas a minha matéria e imploro que a deixem degradando-se em paz. A putrefação não é degradante. Se a humanidade permitisse que a natureza tomasse o seu curso, seria o renascimento da matéria.
Eu renasceria no vento que passa a murmurar, nas folhas que farfalham, no solo que abriga e alimenta milhares de seres vivos, na água que corre para o mar nas chuvas que regam os campos, no orvalho que cintila ao luar, nas grandes árvores que abrigam ninhos de passarinhos e que vergam a passagem dos ventos fortes, nos pequenos arbustos que escondem a caça do caçador...
Céus! Eu me vingaria se apenas uma de minhas partículas participasse do desabrochar de uma flor ou do canto de um pássaro. 

Romântico? Não! 
Foi o mundo, a política, meu educador, mas principalmente... foi o seio que aconchegou a criança que vinha lhe contar as suas tristezas, mágoas, alegrias, pensamentos, e seus desejos íntimos... suas esperanças. 
A criança crescida quer voltar para lhe contar seus sofrimentos, desilusões, a morte de suas esperanças... para encontrar novamente o aconchego onde poderá descansar sua cabeça cansada e abatida e onde poderá, enfim, chorar as suas lágrimas que não encontram mais onde chorar.
Volto derrotado porque não fui capaz de viver. Trabalhar e estudar não foram suficientes para mim. E foi tudo o que me restou. Prefiro morrer do que viver com a morte dentro de mim. 

É melhor queimar do que se apagar aos poucos.
Perdoem-me.


Minha mãe nunca se perdôou e viveu em depressão em cima de uma cama de hospital durante 9 anos, até falecer de desgosto.
Mas ela teve milhões de chances de se redimir, e eu também.
Com apenas duas palavras: Me perdoa?
E nós dois não o fizemos. Me arrependo amargamente de ter interrompido uma vida frutífera por mágoas. Me arrependo de não tentar conversar com ela mais vezes sobre essa morte do amor dela por mim.
É triste morrer sem entender. É triste perder alguém sem entender.

Não deixe que as mágoas, o rancor e a raiva tomem conta da sua vida.
Não construa paredes, muros e edifícios em volta de você, abra-se. Deixe-se ser descoberto.
Perdoe-se, perdoe aos outros. Desate os nós. E seja feliz.




É tão bom ser oco.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

La foul.

Ouvindo Piaf senti isso, essa coisa fria que me arrepiou, la foul.
Deprimente, porém bonito. São as marcas dos nossos tropeços doendo que nem cicatriz em dia de chuva.  
E assim, ouvindo o som que entrava suave aos meus ouvidos, e aquele sotaque que parecia ter sido meu em alguma outra vida, chorei. Chorei durante 23 minutos. Engoli a cerveja, desliguei a vitrola e saí para me divertir.
Com o pensamento distante, quase perdido, eu parecia uma autista passeando pelas ruas do Leblon. 
Em um vazio me faço gente, mas dois passos depois e me perco de novo na imensidão caótica da minha mente. Minha dura carne que me trai.
Mas como a tudo se supera, um pouco antes de o sol nascer, a dor já havia sido retirada como se a cerveja fosse morfina, e a ferida devidamente estancada.
Difícil é quando a gente bate no machucado vez que outra e ele volta a sangrar, nos lembrando de como somos frágeis quando sentimos dor.
Até lá, eu vou fingindo que ele não existe, coloco umas ataduras por cima pra disfarçar, viro o rosto, ponho meu salto alto e vou beber, rir e dançar.

Alors, sans avoir rien
Que la force d'aimer,
Nous aurons dans nos mains,
Amis, le monde entie!

domingo, 31 de outubro de 2010

Sonhos de Margarina...

...Eu já tive.

Já me vi com uma bela família, em torno da mesa de café da manhã, tal qual mostra o comercial. Mas na vida real os sorrisos harmônicos não são eternos.

Aprendi então a comemorar os instantes felizes. Uma noite, um café, uma bossa, um beijinho, o riso.

Aqueles instantes salvadores, cuja natureza efêmera não permite grandes vôos, muito embora nos deixem quase sempre no céu.

A vida é feita de instantinhos.


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Metafórico.

Parei pra pensar no processo de perda da rastejante, ignorante e terminal taturana que pensava que seu fim tinha chegado quando na verdade ela estava se preparando para seu grande momento de amadurecimento.
Ela perderia todas aquelas patas e ganharia duas lindíssimas asas.Ela perderia peso e ganharia leveza. Ela só tinha a ganhar e a coitada se lamentava iludida e sofrida com a passagem.
Era o bom e velho jogo do "quem perde ganha". Do menos, é mais.
Claro que não é a primeira vez que passo por um processo desses, mas parece que a vida não dá folga: é como um videogame que cria maiores dificuldades quanto mais você vai vencendo.
Acho que a lição é conseguir aprender a viver sem depender de nada nem ninguém, mas ao mesmo tempo dependendo de tudo e de todos.
Em palavras mais simples, a solução é confiar em si mesmo e no processo que estamos passando no momento.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Boneca de lata.



A desagradava aquele percurso nítido em meio à multidão. Olhava o rosto dele vindo de longe, que com carinho lhe fitava. Mas a moldura que via em sua mente do quadro que iria surgir nos próximos minutos era de vidro e corte, sangramento e dor.
Ele sentou com ela na porta de um botequim qualquer já fechado. Ela apertou as pontas do casaco contra o peito, acendeu seu cigarro e sorriu, olhando para ele.
- Que foi? - Ele perguntou.
E ela pediu:
- Deixa eu ser tua amiga?
Ele deu uma alta gargalhada e a beijou ligeiramente.
- Mas que bobagem, nós já somos amigos, somos mais que amigos!
Ela sorriu com apenas um canto da boca e tragou em silêncio olhando para uma árvore qualquer, com cem milhões de pensamentos na cabeça.
- Não é isso, é que eu não quero isso pra mim. Essa relação que a gente tem tá ficando cada vez mais séria. E relacionamentos só complicam. Eu gosto tanto de você, mas não posso mais continuar com isso. Acho melhor sermos só amigos.
Lágrimas corriam nos olhos dele, que virou o rosto para que ela não visse a fragilidade que aquelas duras palavras haviam lhe causado, mas enfim a deu um beijo na bochecha, levantou e partiu com o coração quebrado e deixando o silêncio mudo e indiscreto tomarem conta dos pensamentos dela.
Ela sorriu, tragou seu cigarro e foi para casa dormir seu sono pesado.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

IGREJA CATÓLICA

1) Calou a boca na 2a guerra e não fez nada contra Hitler e Mussolinni. 
2) Apoiou a ditadura no Brasil abertamente 
3) Bento XVI até agora não fez NADA realmente contra os padres pedófilos. 
4) São contra o uso da camisinha. 
5) Recomendam voto em José Serra.
 
 
Nem Dilma, nem Serra, nem Igreja Católica.
Meu voto vai para a paz. O vazio. O branco invadindo as cidades como uma tsunami. Recomeço. Consciência. O povo precisa.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Caro Sr. X,

Lamentamos informar-lhe que você foi desclassificado e considerado desqualificado por perda de encanto mútuo, destruição da magia de primeiros encontros, infenso à paixão, corrobora o nosso asco por romantismo exarcebado. Obrigada pela tentativa, esperamos que tenha mais sucesso na sua próxima jornada em busca do surreal e inexistente conto de fadas. 
Att,
Empresas Bárbara's destroyers.
#prontofalei.

Yeah, yeah, yeah... babe.

Eu levo uma vida desregrada, com muito álcool e vida noturna.
Acordo às 4h da tarde de terça com o barulho do aspirador e uma dor de cabeça dos diabos. Só tenho flashbacks da noite anterior e fico sabendo o que fiz pelos amigos.
Não me assusto mais por ser abordada por pessoas desconhecidas que sabem até o nome do meu papagaio japonês sem asa e que não cansam de falar das altas conversas e filosofias que eu disse numa festa que nem sei qual é.
Eu não pergunto nem onde é a balada, mas o que vai ter pra beber e o quanto, e prefiro ficar na rua com uma garrafa de qualquer coisa na mão do que ir à exposição de um escultor do Alberjistão do Norte que todas as pessoas dizem ser maravilhosa. Conheci todos os namorados em festas e só quero ter como amigo as pessoas que conseguem virar vodca quente tão rápido quanto eu.
E, sim, meus queridos, eu tenho meu nome associado ao quanto eu bebo, eu conheço todos os donos dos bares, eu tenho conta neles. Eu conheço pessoas estranhas, pessoas loucas, pessoas felizes.
Eu não quero namorar, eu não quero casar, eu não quero me apaixonar, eu não quero um compromisso com ninguém. Hoje em dia, tenho fissura pela racionalidade sentimental.
Sim, sou taxada de LOUCA pela sociedade moralista. Mas uso meu livre arbítrio todo santo dia para fazer o que eu quero, para fazer bem para os outros, para ser feliz, e se eu estiver me fazendo mal, aguento as minhas consequências.
Que você fale, diga e pense, querido... o que bem entender de mim. Eu sei exatamente quem sou, e tenho muito orgulho, pois estes são os melhores anos da minha vida!
E lembre-se: A vida não deve ser uma viagem para o túmulo, com a intenção de chegar lá são e salvo, com um corpo atraente e bem preservado. Melhor enfiar o pé na jaca - Cerveja em uma mão - tira gosto na outra - com um corpo completamente gasto, totalmente usado, gritando: Valeu! Que viagem!



sábado, 9 de outubro de 2010

Os traços e linhas daquela boca traçavam o percurso retilíneo e movimentado pela minha estrada de chão, chegando em linha reta aos meus desejos mais profundos e secretos.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

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Choveu. como havia de ser, choveu.
Choveu. pra coroar todo o fluxo de pensamentos, pra lavar todos os nossos pecados. para nos trazer de volta antigos sabores, para nos fazer sentir alguma coisa quando toca coldplay e quando a gente vê tocar no barzinho aquela música de MPB que nos traz um gosto de cítrico na boca.
E aquele moço que falava estranho parado me olhando e riscando no papel com seu lápis os traços que ele via em mim. O grafite que me via era mais bonito que a pele propriamente dita que eu carregava.
A cerveja, o cigarro, o rock, a bossa.
O irmão de minha alma que me acompanhava, com seus olhos brilhantes de artista, e cantava as dores do mundo sem filosofia.
E um único gesto insensato trouxe aquele gosto de saudade na boca. Uma saudade de um lugar que não estava ali, de uma música que não poderia ser tocada, de um grupo de amigos que não chegaria nunca.
Um único gesto insensato havia me custado a sanidade naquela noite.
E havia ainda a vontade de vê-lo. Não sabia o que me afligia mais o coração, se era aquela vontade louca de ver ele, ou o abismo enorme que nos separava. Ele estava bem, mas do outro lado do país. Como era de se esperar, mais um ato insensato. E eu escrevi aquelas linhas em dois minutos, escrevendo tudo que meu coração bêbado poderia dizer. Em minutos, a resposta veio, com amor saindo por todos os cantos daquele aparelho tecnológico bendito.
E então a minha noite mudou.
Sem arrependimentos, apenas uma constatação.

Você é um grande homem. 
Eu sempre vou te amar.
Obrigada pelo amor dedicado.
Obrigada pela amizade.
Obrigada por perdoar os meus erros infantis.
Obrigada por todos aqueles anos maravilhosos comigo.
 Obrigada por ter me amado e cuidado de mim.
Obrigada por continuar cuidando.
E mesmo quando você não está aqui, você é o mais presente
nas noites de medo do escuro, nas praias, nas pescas, nos sushis.
Você é o homem dos sonhos.
E agradeço por ter participado da minha vida,
me ensinando e somando.
Juntos construímos só coisas boas.
O tempo acabou, mas o momento será eterno.