terça-feira, 10 de junho de 2014

Bebi café gelado, engordei um quilo. Ouvi uma história de amor e lixei a unha do mindinho esquerdo. Escolhi tênis para usar. Apaguei aquele e-mail que nunca li e não era spam. Pensei em você algumas vezes, mas não quero falar disso.

Assisti a um documentário sobre crianças psicopatas e descobri uma banda nova por sugestão do youtube. Tomei remédio pontualmente ao meio dia, como nunca faço. Quis beber cerveja no almoço. Entendi, mais uma vez, porque pessoas se drogam quando estão tristes. Embora eu não adie meu sofrimento. Cheguei à conclusão que a intensidade da dor ameniza o tempo que ela permanece na cabeça. E não vou chorar. Porque não consigo. E prefiro evitar o assunto.

Passei batom vermelho, mas escolhi um brinco pequeno. Dei bom dia ao meu irmão, as plantas do jardim. Fui feliz por cinco segundos. Pensei em sorvete de pistache, putaria, Tom Waits, teoria da conspiração e Ask. Comprei um quilo de patinho. Abri a geladeira, bem rápido, porque está frio e tive aquele medo absurdo de que eu congelasse. Joguei fora uma banana preta, que eu comprei há três semanas. Dormi três horas. Olhei pro celular algumas vezes, até que finalmente ele descarregou. Por fadiga, desprezo, medo, mentira, desinteresse, outra mulher mais gostosa ou algo que eu tenha feito e não saiba. Mas não vou pensar nisso. Nem beber em homenagem a isso. Por que não quero valorizar o momento. E também não quero falar sobre ele.

Escrevi uma poesia. Apaguei a poesia. Me olhei no espelho por mais tempo do que o normal, procurei brilho no meu rosto; nada. Me senti mais cansada do que o normal, com menos fome do que o normal e meu humor estava cabisbaixo. Tive medo de morder pessoas. Pensei mais do que escrevi. Escrevi mais do que falei. Baixei três episódios de uma série. Aquela. Aquela que. Esquece. Não quero resgatar nada. Nem falar de nada. Quero acordar no mês que vem. Quero acordar livre disso. Queria poder ligar o som para ouvir uma música animada. Mas.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Cotidiano

Acordei com a cabeça em ordem e os pés ao contrário.
É mais um dia do tem-de-ser sem sequer pensar no e-se-assim-não-for.
Lavei o sono com água fria e um suposto repelente de borbulhas. Suposto.
O café preto de costume, a letargia do amanhecer e o fardo pesado de mais um dia a percorrer. Terá que ser mesmo assim?
Nunca gostei de verdades absolutas; e mais verdade é que também sempre me perdi no meio da relatividade, pendente entre os vários lados sem saber qual deles não tinha nariz de pinóquio. Bailarina no limbo, bem sei.
A questão é que o tem de ser deixa-me enjoada pois não lhe encontro as raízes. Não combina com o meu par de meias, nem brincos tampouco. Não se dá comigo. Não sei.
Cabe-me melhor o eu-assim-quero. Hoje fico por aqui.
Mas maldita varinha de condão que nos conduz e que pedras nos põe no caminho, nem tanto para nelas tropeçar, mas para decidir um destino.
Nessa altura espero pelo amanhã, que um sinal nele apareça. Pois decisões nunca foram comigo.
Não as quero nem em fios de promessas enroladas.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

 

Era fria como um destes continentes árticos que faz nossa pele agulhar de dor.
Tinha cubos de gelo incrustados na carne, e sentia orgulho de ser assim.
Ela era também fugaz como aquele vento frio que bagunça nossos cabelos e faz nosso nariz ficar vermelho.
Perpendicular a isso, era afável. Intensa.
Doava carinhos demais, palavras doces, sorrisos. Gostava de recebê-los.
Tinha sempre estes dois lados, e os dois eram fortes demais para que um aparecesse mais que o outro, então os dois eram predominantes. Ela era duas, e estas duas tinham pólos opostos.
Difícil entendê-la.
Era agridoce. Discreta e estabanada. Intensa e sutil. Um pouco louca, um pouco sanidade. Um quadro típico metamórfico de dualidades reversas. E adorava ser isso.
Era aventureira, gostava do perigo, do risco, de se atirar de um avião com um pára-quedas e de cair em queda livre. Amava sentir correndo em suas veias a adrenalina. Idolatrava o prazer de viver intensamente.
Ela era a fuga do fugaz prazer que o amor oferecia. Era fugitiva.
Não era do tipo que andava de mãos dadas como discretas algemas cabíveis na sociedade. Não gostava de receber flores bonitas que já estavam morrendo com o passar das horas. Não queria a luz das velas que se apagariam com o sopro de um sussurro.
Quando isso acontecia, ela desaparecia.
Deixando para trás algumas lembranças doces do seu jeito maluco, dos seus rastros de lama no tapete, do perfume de flores no casaco, dos fios de cabelo no sofá, da música que cantava sem saber, das gargalhadas banais, da alegria medonha de quem faz o errado parecer certo e faz o certo de forma errada.
Estas lembranças ficariam guardadas nas memórias ou nas gavetas de alguém.
E ela voltaria a aparecer, gargalhar, cantar pelas avenidas de outro alguém.
E quando tudo parecesse maravilhoso de novo naquele novo mundo, algo a inquietaria, a faria mover os pés, as pernas e os braços sem olhar para trás em direção ao cais, ao aeroporto.
Mostrando o passaporte ela novamente diria sorrindo:

- Preciso de uma passagem só de ida, por favor.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

 — E tu, por que desvia o olhar? Tem vergonha de mim?


(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarrá-los em qualquer pedra no chão e me salvar desse sentimento de apego. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, 
sem
 sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos).


— Ah, eu sou tímida.

sábado, 10 de maio de 2014

Você, de novo.

Algum dia, quando eu estiver terrivelmente chateada
Quando o mundo estiver frio
Eu me sentirei bem só de pensar em você
E como você estava aquela noite
Você é tão adorável, com seu sorriso tão caloroso
E sua bochecha tão macia
A cada palavra que sai de sua boca, sua ternura cresce
Levando meus medos embora
E aquela risada que enruga seu nariz
Toca meu coração bobo
Sim, você é adorável,
nunca,
jamais
mude
Mantenha esse charme que me tira o fôlego
Pois eu te amo;

Exatamente como você está essa noite.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Quando toca,
Tão bonito
No particular,
nosso mundo,
Eu assisto.
Um quase segredo,
Tu me canta
Encanta.
Eu fujo e ouço ao fundo:
Te amo.
Então volto prum beijo,
De bobo te chamo.
E o bobo canta e toca
Essa música pra mim
"Querubim" - ele pede -
"Toca o coração dessa moça andante."
Mas quem toca é ele,
Quando o primeiro acorde sai
E ele canta com um sorriso,
o corpo dançante.
Todo amor do mundo
E ele ama ela.
Ela ama ele,
mas seu coração é vagabundo.

domingo, 6 de abril de 2014

Parei de guardar minhas mágoas como anéis de ouro. Com extremo cuidado e apego.
Joguei no lixo do meu quarto verde as memórias, as desilusões, as coisas ruins.
Me libertei.
Pra começar de novo é assim.
A gente vai ganhando liberdade, ganhando asas, olhando pra frente e principalmente para os lados.
A gente tem que estar leve pra poder perceber as nuances de um olhar, nas primeiras (e segundas) intenções que se escondem por trás de um sorriso malicioso, de um abraço demorado, de um beijo no cantinho da boca (quase como que roubado).
Quando a gente começa a perceber esse tipo de coisa, é porque esta voando outra vez. Leve, leve.

Sou a primeira pessoa do meu plural, confusa.
E não sei dizer se estou atrasada pelo compasso que ando, ou se apenas a hora é certa e tudo tem seu tempo.
Tenho tempo.
Tenho sonhos pontuais, desejos banais, às vezes casuais.
Quero ter alguns filhos,e saio por aí dizendo que não.
Meu café é forte, meu açúcar é adoçante, sem afeto, sem calmante.
Escrevo simples para não perder a palavra.
Dou suspiros na madrugada. Atiro um beijo pra pessoa errada.


Parece que foi ontem quando arrumei as malas e desapareci.
Deixando pra trás todas as pessoas do mundo.
As chatas, as acéfalas e também as tediosas. Pois todas elas escondiam espinhos em suas falas, em seus olhares e em seus gestos.
E nunca fui boa em desviar de farpas, quiçá espinhos.
Arrumei as malas e desapareci. A casa da árvore, então, me acolheu. Figura onírica de minha infância, era a casa.
Do alto dela, eu imaginava a preocupação de todos ao darem por meu sumiço.
Mas, com o passar do tempo, calculei que se acostumariam com minha ausência.
A tudo se acostuma.


Às vezes dor não é só suspiro profundo.
Tem dia que não tem sol, tem dia que a chuva alaga onde nem tinha lago nem poço, tem dia que gelo vira água quando não derretia.
Nem todo sorriso é de alegria.
Tem mosquito matando gente e de repente fica tudo sem controle.
De tudo o que eu acho metade pode valer, outra metade o outro não crê.
Só sei que de perto ninguém é normal e de longe todo mundo é igual.


Olho para você. Eu olho bem para você. A única coisa que pergunto,"onde diabos está?", inútil soa. Porque estava bem ali, mas parecia não estar.
Anteontem à noite quando não parecia tão próxima a hora da morte, recheei meu peito com estopa grossa e pensei que, estofado, não se ocuparia de outras bolas de algodão, de outros retalhos, de outros panos velhos, mas foi só mais um engano, um engano cotidiano, desses que acontecem nas tardes quentes em que prestamos mais atenção ao bolo que está sendo assado do que aos chiados estáticos da nossa pele. 

De nada adiantou promover um canto confortável e macio para alguém, criar teias intrincadas de sentimentos, furtar para si o que ela tem de mais genuíno e doar para ela o que você tem de mais quente, de mais borbulhante, de mais perigoso; 
Isso não adianta nada, os tecidos seguem agregando seus pedaços perdidos no mundo, incorporando para si os milhões de fios de seda, de algodão, de lã, de linho e constituindo lá dentro a estopa que protege meu peito das friagens, das bruscas quedas de temperatura, das ventanias, das geadas e de toda a sorte de variações climáticas possíveis. 
Dessa vez, e que se ressalte: só dessa vez, você não era pano, era o contrário disso, era o delírio de uma tarde sem sedativos, era a tentativa do último gole de cachaça que faz voltar à terra todo oresto do litro, era a gota de chuva que pega singularmente na nuca e escorre pelas costas por dentro do casaco, era saudade que deita o mais forte dos homens em febre terçã.

- você ventou em mim.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Não quero ser só tua
Não te quero só pra mim
Mas meu coração sempre será só teu,
E gosto muito de te ver,
Leãozinho.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Altar, altera, alter—ego.

Ah, tu que um dia me quis tanto
Hoje tatua o pranto
A dor do encanto que sobrou
O pouco de amor que transtornou

Ah, hoje com a tez enrugada
Dita vidas que não tive
Amortece a dor com a fala
E fala, a língua ácida que agora vive.

Tu, que era e ainda será
O bom e doce do amor tão pleno
Ainda na morte dos dois, quiçá:
O um te fará mais sereno.

Ah, tu, tua cândida face,
Um lamento da tarde fria
Ausente das chuvas e dos ventos
Presente na sala vazia.

Não posso seguir esse passo
Nem encontrar o que perdi em ti
Sou despedida,  num abraço
Sou morte morrida do colibri

Por amor, uma promessa
Quebrada com as mãos trêmulas
Com o corpo pesado, com pressa
Sem pudor, sem certeza.

Hoje caminho na avenida solitária
Vejo teu rosto nas pedras da rua
Clamo por uma doce menina
Que te fará sorrir, será só tua.

Do perdão, uma súplica
Que te faço em oração
Peço em silêncio, cálida prece
Teu altar triste, meu quinhão.

Sou consciente do amargo
Que minha busca por liberdade traz
Na lápide que carrego com zelo:
Amou demais, aqui jaz.

terça-feira, 11 de março de 2014

Rascunhos em respostas.

Mais amor,
Mais poesia,
Mais educação,
Mais harmonia.
Ah, os mais que faltam no mundo!
Faltam porque fazemos
de nós,
Insensíveis vagabundos.
Transeuntes de uma vida,
Correndo em disritmia.
Olhando sem ver
O pobre e o pão,
As urgências do coração,
A morte do irmão.

Do exagero,
a morte do amor.

Do desapego,
a mão que enlaça.

Da posse,
a ilusão que te embriaga.

Vê, irmão, a nobre poesia
Do amor livre, da dor sentida em dobro
De ser uno, em uníssono.
Sê a breve vertente da liberdade
Deixa a cruz, carrega o vento
E só pra ti,
tenha esse olhar atento.
Deixa ir, com compaixão.
Só segure firme tua própria mão.
Da felicidade,
faça tua alegoria.
Um carnaval livre
das tuas próprias fantasias.

sábado, 8 de março de 2014

O conto que nunca te contei.

Havia acabado mais uma daquelas brigas torturantes entre os dois.
Briga de casal jovem, que briga por besteira como se o mundo todo fosse acabar.
Mas dessa vez eles haviam pegado pesado, ele havia pegado pesado com ela mais do que nas outras vezes, talvez por estar cansado dos gritos dela.
Ela saiu do pequeno apartamento de térreo que os dois dividiam no Catete sem conseguir conter a cachoeira de lágrimas.
Soluçava, enquanto tentava organizar os pensamentos sobre onde ia, já que não tinha muitas pessoas conhecidas naquela metrópole quase desconhecida pra ela até então.
Pensou em procurar o tio, que sempre a acolhia nos momentos que precisasse. Ele era também sua única família por ali.
Pensou melhor e constatou que o tio se preocuparia com seu bem estar e a mandaria de volta pra casa, e ela não queria isso. Enquanto pensava, passou por um casal discutindo, mas não deu muita atenção.
Depois da esquina, na outra rua em frente ao boteco em que ia sempre tinha uma pensão, e ela resolveu passar a noite ali, pois tinha um pouco de dinheiro na bolsa.
Quando chegou, estava tudo fechado e as luzes apagadas. Tentou tocar a campainha mas ninguém atendeu, as lágrimas e os soluços continuavam e ela decidiu encontrar algum hotel por ali ou na Pedro Américo, pois isso parecia razoável pra ela naquela confusão em que estava sua mente.
Foi então que uma mão tocou seu ombro e uma voz grossa perguntou:
"Moça, tá tudo bem com você?".
Ela se virou e viu aquele homem barbudo com o cabelo comprido preso em um coque na nuca, bonito (mesmo) e com um sorriso no rosto. Ela estava confusa, mas chorou mais um pouco, quando ele a abraçou e disse "seja lá o que for, está tudo bem, vai ficar tudo bem" e apertou os braços pra apertar ela naquele consolo dado por um estranho.
Foi então que ele perguntou se ela estava procurando lugar pra dormir, ela acenou com a cabeça em afirmativa e ele disse que conhecia o dono do hostel da outra rua, e que iria ajudá-la a entrar lá, mesmo sendo tão tarde da noite.
Eles foram juntos até lá, mas o hostel também estava fechado. Então sentaram num banco para pensar juntos e foi aí que ele teve a idéia de beber umas cervejas. Foram até o cachorro quente da esquina e ele comprou duas cervejas. Sentaram na calçada e conversaram, ela falava sem parar sobre o que havia acontecido, e quando terminou chorou até vomitar. Ele segurou o cabelo dela e disse "vomita que você vai se sentir melhor", e ela realmente se sentiu melhor mesmo com um estranho agora limpando sua boca vomitada.
Beberam mais e ele disse que todo mundo o chamava de Manél e que morava em Botafogo. Não deixou ela pagar as cervejas e disse que também estava brigando com a namorada quando a viu passar chorando.
Ele fazia cinema na PUCRJ, gostava de viajar pelo Brasil tirando fotos e morava com o irmão e um labrador chamado Chico. Era alto, magro, barbudo e muito bonito.
Ele falava apaixonadamente sobre o festival de esquetes em que estava participando, e que ia ensaiar no dia seguinte de manhã com um amigo, e que aliás, ela deveria conhecer esse amigo.
E então, depois de algumas cervejas, risos e muita conversa, os dois pegaram um táxi e foram para Botafogo, compraram muito mais cervejas no cachorro quente do que parecia ser já um velho conhecido de Manél e foram pro apartamento dele. Um lugar pequeno, mas muito aconchegante e arrumadinho, a sala era relativamente grande e Chico dormia tranquilo num tapete grande ali, e Manél cordialmente ofereceu o sofá e disse para ela não se preocupar que ele não faria nada com ela, ele só queria realmente ajudar.
Eles foram para o minúsculo quarto dele beber as cervejas, e ele mostrou a ela as belas fotos que ele tirou, muitas do Sul, lugar em que ele adorava ir, coincidentemente, já que ela era gaúcha.
Uma hora depois, mais ou menos, eles desceram juntos para levar o cachorro Chico para passear. Ele pegou na mão dela. Ela sorriu.
Voltaram para o apartamento, tomaram mais cervejas, conversaram enquanto ele fazia carinho no cabelo dela descompromissado, apenas por fazer. Ele tirava fotos dela fazendo caretas enquanto ria.
Conversavam muito, quando numa onda de entusiasmo ela o viu pulando como uma criança, rindo um sorriso maroto e perguntando:
"Quer saber como eu me divirto de madrugada?"
Sim, ela queria. Não tinha como resistir ao entusiasmo daquele homem menino que era tão bonito por dentro (e por fora).
Ele pegou rapidamente o telefone, discou, esperou uns segundos com cara de criança travessa e passou o telefone pra ela dizendo:
"Pede uma música".
Ela sem entender nada e sem pensar muito pegou o telefone e disse:
"One do U2" e uma voz parecida com a do Lombardi com sotaque paraíba no outro lado da linha perguntou "E qual o seu nome?", ela respondeu e o pseudo Lombardi responde "quer mandar um alô pra quem?" e ela rapidamente disse que pro Chico do Manél.
Minutos depois começa a tocar na rádio a música pedida, ela olha pra ele e ele a tira pra dançar. Eles dançam devagarinho até que o pseudo Lombardi fala, cortando os minutos finais da música pra dizer que essa música tinha sido dedicada da Bárbara pro Chico do Manél.
Eles riram, riram por muitos minutos, enquanto Manél fazia a próxima ligação.
Ao todo devem ter sido umas 15 ligações para a mesma rádio, dando nomes diferentes e intercalando ele e ela enquanto  faziam vozes diferentes ao telefone. Eram duas crianças que se encontraram aquela madrugada e que riam até doer a barriga.
Foram fumar um cigarro na janela do quarto e enquanto ela tirava os brincos que já estavam incomodando ele perguntava meio sem jeito:
"Porque você ainda está com ele?"
Ela não disse. Apenas olhou pra baixo, cruzou os dedos e ficou pensando.
Ele disse então:
"Você ama esse cara né?" e ela afirmou com a cabeça.
Ele então a puxou e a beijou, apaixonadamente, com uma mão na cintura dela e a outra agarrando seu pescoço. Ela gostou.
Depois do beijo olhou de um jeito sério nos olhos dela e disse: "Poderíamos ser amantes, então?" e eles riram muito, novamente. Ela parou, voltou a tragar e perguntou:
"Poderíamos ser amantes vitalícios, o que você acha?"
"Amantes vitalícios... eu adorei essa idéia! Quero ver você muitas vezes mais, estar com você é como voltar a ser criança!", disse ele com os olhos brilhando e um lindo sorriso torto. E então travou um monólogo sobre o seu monótono relacionamento e como tudo em relacionamentos parecia tão complicado quando na verdade deveria ser simples. Ela ouviu atentamente.
Conversaram quase toda a madrugada, gargalharam a maior parte do tempo, tiraram mais fotos, ele dela, ela dele, beberam quase toda a cerveja e então deitaram os dois de conchinha e de roupas na pequena cama de solteiro de Manél. O rádio ficou ligado e ela dormiu ao som da voz do paraíba que sonhava em ser Lombardi.
Ela acordou serenamente as 8h da manhã, e ele ainda estava com ela nos braços naquela conchinha confortável que fez ela dormir bem e sorrindo. Ela levantou, calçou os sapatos, olhou ao redor e viu seus brincos. Deixou ali de propósito para que ele lembrasse dela, mesmo gostando muito daquele par de brincos.
Olhou pra ele com muita admiração, dormindo o sono dos anjos. Agradeceu baixinho.
Saiu pela porta, deu um suspiro, e desde então,  nunca mais o viu.















quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Carta.

Porque vezenquando eu sinto uma saudade danada de você. Não teria nem em sonhos coragem de falar isto a você hoje em dia, pois assisto de longe a sua felicidade.
Mas ao ouvir tua voz mansa, meu coração dá um aperto bobo e as memórias caem em minha mente como uma cachoeira desenfreada. Lembro das nossas cervejas quentes e que eram tão ardorosamente degustadas pouco antes de nos atirarmos um nos braços do outro.
Lembro das repetidas vezes que em meio a abraços éramos interrompidos pelo choro que vinha do outro quarto, e você, em sua infinita paciência, sorria e me dava um breve beijo na testa com a mão encostada em minha bochecha.
Um desperdício, creio eu. Um desperdício de tanto amor.
E agora um desperdício de saudade.
Não porque não valha a pena sentir sua falta. Você sempre valeu a pena.
Mas porque não vale a pena que esta curta distância que nos separa faça tanto mal.
Havia em nós um trato, uma amizade além dos beijos corriqueiros no pequeno apartamento.
Eu era sua, mesmo não sendo. E vice versa.
Quando seu caminho começou a seguir para a sua nova vida, nós ainda discutíamos sobre isto e ríamos das psicopatias alheias. Nós éramos uma boa dupla.
Sempre nos entendemos e sempre nos acolhemos em qualquer momento ou em qualquer tortura mental que dissipava nossa tranquilidade.
Fazíamos bem um pro outro enquanto tomávamos cerveja sentados no carpete do apartamento ouvindo repetidamente as mesmas músicas que você não aguentava mais.
Você me fazia bem enquanto dedilhava um som qualquer, pra em seguida, derramar cerveja e me beijar apaixonadamente como um pedido de desculpas.
Ríamos descaradamente dos absurdos que já ouvimos, ríamos dos filhos da lua e dos extraterrestres em suas figuras paternas. Ríamos também só por rir.
Depois disto, mesmo que secretamente, nos falávamos para saber um do outro. Tínhamos uma palavra secreta engraçada e um amigo invisível chamado Pedro.
Eu sinto muita falta deste cuidado supremo que nos mantinha entrelaçados mesmo distantes. Eu senti falta quando você não cumpriu o acordo que fizemos sentados naquela mesa do posto, já bêbados, e concordamos em sempre ter um ao outro secretamente.
Eu sei que a provável causa da quebra do nosso acordo tenha sido a sua busca pela felicidade em minha ausência, mas a realidade é que eu sinto falta da sua voz mansa e doce e de seus arpejos sintonizados com o coração.
Dia desses eu estava caminhando pelas ruas de um Rio antigo, quando ouvi alguém chamar seu nome. Olhei imediatamente com alguma esperança de que os boatos de que você viria para cá eram verdadeiros e você estava aqui. Mas quem respondeu foi o dono da banca de jornal, gordo e de cabelos brancos e com um rosto brevemente desconfiado.
Eu sabia que, no fundo, não era você, mas ao ouvir seu nome nada comum pelas ruas de Copacabana, eu me lembrei de que eu sempre vou sentir saudades suas e da sua alma tão cândida.
Com carinho e muita saudades, de dentro.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Tenta-a-ação;

Arde
o fogo
do desejo.

Anseio,
em minhas vísceras
teu beijo.

De quatro
(estações) fugimos,
para entender.

Essa malícia,
que é amor
e prazer.




quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Doce.

Um café amargo, um menino doce,
um sorriso, um abraço, uma música bonita, um conto obsessivo.
eu, você e todos os nossos vícios.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Um quarto.

Ela estava sentada na cama olhando fotos antigas de um tempo em que seu sorriso fluía tanto quanto sua alma em alegria. Pensava em como foi feliz. Dos amores que viveu, dos amigos, dos abraços repartidos em tardes ensolaradas em uma cidade pacata.
Um quarto. Um quarto de século, e ela nunca teve tão pouca vontade de viver.
Os dias são mastigados e cuspidos.
Os meses passam se arrastando e ela não consegue ver nada além de mais dias estupidamente mal acabados no ano novo que chegou.
Um quarto. Um quarto de século.
Sua apatia desestrutura sua mocidade.
Vai levando os dias um por um, sabendo que o fim da noite trará o azedo e fétido cheiro da amargura.
As marcas já são só marcas. As cicatrizes são só cicatrizes.
Mesmo que com faca afiada encostasse nelas, não doeria mais. A tudo ela se acostuma.
Uma tenra idade, o perdão, a noite, a cidade.
Tudo que a encantava, hoje é musgo no coração empedrado.
Talvez seja resultado daquela grande decepção, talvez arrependimento, talvez a culpa seja dela.
Ela não gosta de sentir pena de si mesma e então limpa rapidamente a lágrima que há tempos estava guardada e ela não deixava cair.
Voltou a si, sorriu seu sorriso ensaiado e foi dormir, ciente de que amanhã seria mais um dia.
Mais um.
Um quarto, um quarto de século.
Mas pareciam ter sido séculos inteiros dentro de um quarto.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Ao amor que foi e voltou. E foi.

Enquanto escrevo, o céu assim escuro
Eu sorvo uma vida esverdeada
E cato o tempo assim, mudo
Que me despiu essa madrugada

Saudade faz tão bem quanto o murro
Que a vida dá numa cotovelada
Desfaço a noite num sorriso puro
Que a muito tempo não encontrava

E teu olhar tão triste e baixo
Fala de um tempo antes de nós
Teu poema todo em que me encaixo
Faz de nós uma paixão atroz

E finjo que não sei
O que isso quer dizer
Eu e você sem lei
Num mundo ainda a se conceber.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

- Eu só quero, do fundo do coração, que você morra.

- Tá bom, tá bom. Combinado. Mas antes vem aproveitar um pouco de vida comigo? - 
Ela diz, piscando e dando aquele sorriso torto que ele ama. Ela sabe que ele sempre se entrega depois de um sorriso torto e um ombro desnudado.

- Droga.
Faz quase um ano.
Estes dias te vi, magro de sorrisos e gordo de amor.
Sorri.
É engraçado como as coisas aconteceram e foram acontecendo, e as decisões que eu tomei.
O mais engraçado é o quanto eu sinto a tua falta. Me falta como aquele dia que faltou cerveja e atravessamos a cidade pra buscar. É aquela necessidade urgente que a gente sentiu que eu sinto hoje por ti.
Me falta o olhar doce e o abraço apertado e aquele jeitinho de ir chegando e tomando conta do que era o meu pequeno pedaço de apartamento.
Me faltam os S's, os dós e os nós que nós mesmos fazíamos.

Outro dia te vi, e fumei mais um cigarro atravessado, ciente de que ele me traria de volta a realidade e de que eu estive sempre certa...

Não trouxe e eu não estava.

Tem alguma coisa em mim que foge do 'viveram felizes pra sempre'. E sempre fugiu.
Eu já tive coragem pra ir e vir, ser e não ser, estar sem você e viver com você. Hoje eu não sei bem se eu tenho qualquer coisa.
Eu só quero te ver feliz.


Que da minha sanidade cuido eu.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Das dores que tenho medo.

Quando brotou amor em mim, fiz poesia, fiz prosa, fiz música.
Andei por aí sorrindo, sambava com a noite, conhecia os donos dos bares das esquinas, banhava o corpo com a felicidade que existia nessa minha morada de amor.
Quando o amor foi arrancado de mim, eu chorei. Sofri como nunca tinha sofrido e até achei que tinham arrancado o meu coração, porque doía muito.
Jurei nunca mais.
E por isso, meu bem, eu fujo.
Quando meu coração começa a amolecer de novo vou logo dando um soco cruzado pra ele se aquietar.
Chega a ser uma fuga inconsciente, quando me dou conta estou a quilômetros de distância.
Fujo de investidas pesadas para algo mais sério, fujo tremendo quando ouço "quero casar com você".
Fujo de amores pra não sentir as dores.
Com você não foi assim, você sabe.
Tudo fluiu como aquela nossa bossa, nós tínhamos nossas noites de violão com Camelos e morcegos passando por nós. Tínhamos poesia, alegria. Ríamos tanto. Você, tão doce em meio ao meu azedume, assobiava mais uma canção, e mais outra, aceitando meus pedidos incansáveis.
Tínhamos tanto carinho pelo que éramos.

Só que eu me apaixonei.